"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto". (Rui Barbosa)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

QUERO VOLTAR A ACREDITAR

Quando entrei para o magistério nos idos de 1992, fi-lo porque acreditava muito no poder na educação, acreditava que como professor eu poderia contribuir muito para o desenvolvimento do meu Estado, o Maranhão, pobre, sofrido e sem perspectivas. Tinha então 19 anos, era jovem e cheio de vigor tanto físico quanto intelectual. Nada para mim representava dificuldades, não cria em obstáculos demasiado difíceis. Hoje, infelizmente, devo dizer que sou um profissional extremamente frustrado.
Na escola em que fui lotado, a maior e melhor do meu município, encontrei um clima de total desconfiança com relação a mim e a outros colegas recém-chegados, a maioria jovens. Estávamos cercados por professoras, predominantemente, idosas, doentes e desmotivadas. Essas senhoras, a maioria oriundas dos curso normal, ainda sem curso superior, mostravam-se completamente "acomodadas" e, ao mesmo tempo, incomodadas com a presença de tantos jovens. Incomodadas por imaginar, certamente, que chegávamos para tirá-las do seu "conforto", uma vez que certamente viríamos cheios de idéias e de vontade de transformar a escola, o que faria com que elas tivessem que sair do marasmo em que se encontravam e acompanhar o nosso ritmo.
No início, foi exatamente assim. Naquela época, entretanto, as diretoras podavam toda e qualquer iniciativa mais ousada, por medo e por se sentirem ameaçadas pelos mais jovens. Logo surgiu uma grande novidade, a implantação dos colegiados escolares, prometendo dar à comunidade mais participação e representatividade, dar mais autonomia às escolas e reduzir o poder absoluto dos diretores de escola. Muito bom. Empolgação imediata de todos que se puseram a participar.
Uma das diretoras com quem convivia era o mais puro ceticismo, desdenhava de tudo que surgia como novidade e dizia que não daria certo, justificando que já estava cansada de ver e ouvir promessas governamentais e que a situação nunca mudara. Não acreditava no "poder da educação". Ficava indignado com a pouca fé dela, com o seu descrédito e a repreendia. Ela me desafiava e dizia: "Daqui a algum tempo,você vai me dar razão". Entramos em atrito várias vezes. Ela sempre demonstrando a sua descrença e eu sempre achando que podia mudar aquele estado de coisas. Ela apontava os problemas: a incompetência dos gestores da educação no estado, o envelhecimento do magistério, a falta de investimentos nas escolas, a falta de pessoal administrativo e operacional nas escolas, principalmente. Eu achava que tudo isso seria superado no curto espaço de tempo.
Continuei na sala de aula fazendo meu trabalho sempre de forma empolgada, assistindo à displicência dos colegas, vendo as barbaridades cometidas pelas diretoras, muitas vezes ocupando o cargo apenas pelo apadrilnhamento, a falta de apoio da Seduc e da Diretoria de Educação (que centralizava na época as ações regionais) e o descaso com os alunos, porém nunca deixei de acreditar no poder da mudança.
Depois de 16 anos na sala de aula, tendo partipado ativamente dos projetos escolares, dos colegiados como representante de professores e também do núcleo local do Sindicato dos Professores, fui seduzido pela idéia de ser diretor de escola. Recebi o convite de um político local para a direção da escola em que atuava, cujo cargo ficaria vago, porque a diretora tinha entrado em atrito com o poder local. Aceitei, mais uma vez achando que poderia mudar a realidade da escola.
Assumi e encontrei um clima misto de empolgação e desconfiança, como é comum acontecer com todos os idealistas. Muitos duvidavam que eu durasse no cargo, justamente por meu idealismo e pelas dificuldades que encontraria. Nunca fui de fugir a um desafio, portanto não desisitiria.
Devo confessar que minha missão não foi das mais fáceis. No dia em que assumi o cargo não tinha idéia de que houvesse tantos problemas por trás da administração de uma escola. Lembro-me bem que meu discurso inicial foi cheio de otimismo e de credulidade. Achava realmente que minha autosuficiência seria capaz de resolver todos os problemas. Ledo engano. De uma hora para outra me vi em meio a uma avalanche de problemas, cheio de responsabilidades, de respostas a dar tanto aos superiores quanto à comunidade e sem nenhuma condição de fazê-lo. Escola grande, muita gente "subordinada" a mim, muitos alunos, funcionários mal acostumados, acomodados, poucos recursos disponíveis, pendências deixadas por outras gestões e alguns dispostos a tornar minha vida um inferno. Por outro lado, encontrei também algumas pessoas dispostas a ajudar e a tornar as coisas possíveis. Foi graças a esses que persisti.
Algumas coisas me incomodavam muito, como por exemplo as maçantes reuniões de diretores, promovidas pela Unidade Regional. Cada vez que era convocado, ficava extremamente chateado, não por querer fugir da responsabilidade, mas por saber que seria um dia inteiro desperdiçado com discussões que nada tinham de práticas e que não ajudavam a resolver os problemas. Voltava sempre cheio de papéis, de cobranças inúteis e de pouquíssimas novidades. Sempre considerei essas reunões improdutivas.
Depois de muito tempo cheguei a algumas conclusões, algumas óbvias, porém para um idealista como eu, duras demais para admitir:
1. Os diretores de escolas são pessoas completamente solitárias. Não tem a quem recorrer, pois os seus superiores quando não são incompetentes são negligentes; quando são competentes, não tem poder de ação;
2. Os professores são em sua maioria negligentes, não estão interessados na aprendizagem dos alunos;
3. Os salários são de fato ruins, mas aumentá-los não garante a melhoria da qualidade de ensino;
4. Capacitar professores é equivalente a jogar dinheiro fora, pois eles continuam fazendo as coisas da mesma forma, se não houver uma cobrança de resultados;
5. Os alunos, em sua maioria, estão completamente perdidos, não sabem o que querem e não valorizam o estudo;
6.Os pais pouco se interessam pela educação dos filhos e jogam toda a responsabilidade na escola, de quem cobram apenas que ela "endireite" os seus filhos que eles mesmos trataram de corromper, com o valioso auxílio da sociedade;
7. O Governo está pouco se lixando para a melhoria real da educação, desde que os números sejam favoráveis e que eles possam resultar em mais dinheiro.
8. Os professores estão num mato sem cachorro, acuados, com medo dos alunos, cada vez mais violentos, preguiçosos e mal educados;
9. As escolas estão cheias de coisas "inúteis": computadores, laboratórios de informática, laboratórios de ciências, bibliotecas, e tudo o mais que os professores ignoram, desdenham e se recusam a inserir nas suas práticas diárias;
10. Por mais que se fale que educação é prioridade a cada eleição, a cada início de mandato, não dá mais pra acreditar, pois os políticos simplesmente esquecem disso ao assumir o poder.
Depois de tanto tempo, infelizmente, sou obrigado a admitir que fiz a escolha errada ao entrar para o magistério anos atrás. Sinto-me frustrado, desmotivado, infeliz e fracassado. Já não consigo acreditar na educação como transformadora da sociedade na medida em que a cada dia percebo o quanto o país se distancia deste objetivo. Não consigo vislumbrar num curto prazo uma grande mudança através da educação. Só o que vejo são os prefeitos, governadores, deputados, políticos de modo geral deturpando a idéia de que a educação é a solução para todos os males do Brasil. Infelizmente, não consigo me ver fazendo outra coisa a não ser militando na educação, tentando transformar a vida de jovens sem perspectiva, sem futuro.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

De vez em quando é bom refletir sobre o mundo em que vivemos, cheio de regras, de leis, de tabus, de preconceitos. O texto a seguir é um desabafo pertinente de um professor, cansado da hipocrisia do mundo.


O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA


Texto de Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos?

Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

Abraços

Luiz Antônio Simas

(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

CRACK: PORTA PARA O INFERNO

Semana passada fui surpreendido em minha sala na escola pela figura esquálida de um rapaz que costumo ver pelas ruas, mas de quem não tenho nenhuma proximidade. Chegou meio titubeante, pedindo licença e contando uma história meio duvidosa, porém comovente. Disse que a mãe estava muito doente e que precisava viajar a São Luís urgentemente para tratamento. Acrescentou que alguns dos meus colegas de trabalho já o tinham ajudado, citando inclusive uma que lhe tinha dado vinte reais e que ele estava apelando a mim por saber que eu era uma pessoa que gostava de ajudar aos outros. Não sei se sou assim tão altruísta, mas isso me amoleceu imediatamente o coração. Abri a carteira e tirei de lá vinte reais que entreguei sem questionar. Confesso que nem lembrei na hora de perguntar por detalhes sobre a mãe. Impressionou-me aquela figura esguia, maltratada, quase faminta.
Uns dois dias depois, vi-o na rua e comentei com amigos o que tinha acontecido. Para minha surpresa, soube que o indivíduo sequer tinha mãe, que ele vivia com o pai, viúvo. Comentei sobre o estado físico dele e, para minha surpresa, fui informado de que ele estava usando crack. Fiquei chocado, porém entendi de imadiato o porque do seu estado deplorável.
Fiquei meditando sobre como as coisas mudaram desde que eu era um adolescente bobo. Naquela época, e isso não faz muito tempo, fazíamos coisas que podiam ser consideradas reprováveis, porém nada que se comparasse ao que a juventude de hoje faz. Lembro-me bem de um epísódio que considero marcante. Eu devia ter uns dezesseis anos mais ou menos. Trabalhava numa marcenaria, era aprendiz. Num dia em que estava sozinho, recebi a incumbência de consertar um guarda-roupa para uma cliente, coisa pequena. Fi-lo e entreguei em tempo recorde. A cliente ficou bastante satisfeita. Quando ela questionou sobre o valor do trabalho, não consegui calcular, pois era o primeiro serviço que fazia sozinho. Ela me deu uma quantia bem generosa e ainda uma carteira de cigarros Continental. Parecia coisa fina, pois eu sempre via os homens que jogavam baralho com o meu pai fumando essa marca, que hoje creio não mais existir. Sei que fiz bom uso do dinheiro, mas com os cigarros não sabia bem o que fazer. Só tinha fumado até então passivamente.
Lembrei dos amigos, Jarbas e Jair, dois irmãos, meus vizinhos e parceiros de peladas e outras aventuras. Convidei-os para nos reunirmos à noite na praça principal da cidade, prometi uma surpresa. Estávamos lá, três adolescentes com as caras espinhosas, inexperientes, porém cheios de vigor e de vontade de conquistar o mundo. Quando viram a caixinha, ficaram exultantes. O Jair, mais velho foi logo tomando a iniciativa. Acendeu o primeiro e fez pinta de galã. Fumou com desenvoltura, passando-me em seguida. Experiência horrorosa: engasguei-me, tossi, quase vomitei. Deixei pra eles. Aquela fumaça tinha um cheiro muito ruim e gosto pior ainda. Foi a minha primeira e única experiência com cigarro. Experiência muito ruim. Nunca mais senti vontade de repetir.
Durante toda a minha vida tive asco de cigarro, embora tenha convivido harmoniosamente com fumantes de todas as espécies. Conheço bem os efeitos danosos pra saúde de quem faz uso deles. Meu pai quase perdeu a voz. Foi aconselhado pelo médico a parar ou morrer. Preferiu viver. Isso foi decisivo para a minha convicção de que nunca deveria fumar.
Ao longo da vida, vivi muitas experiências, algumas muito boas, outras muito ruins. Convivi com colegas que evoluíram do cigarro para o baseado, do baseado para fileiras de pó, do pó para outras drogas mais nocivas. Nunca tive vontade nem curiosidade de experimentar nenhuma delas, a não ser uma vez num baile de carnaval, em que para impressionar uma garota dei uma cheirada num lenço embebido em loló. A sensação foi horrível e a menina nem me deu bola. Sempre li bastante sobre o assunto e sobre os males advindos do seu uso. Procuro passar para os meus alunos lições valiosas das experiências que conheço sobre o assunto e fico perplexo quando vejo algum jovem estragando a vida de forma tão boba, por um "prazer" tão repentino.
Infelizmente, tenho visto bem aqui em Vitorino Freire nossa juventude se matando diariamente, enquanto os traficantes se deliciam com os lucros cada vez maiores da degradação humana e a polícia onisciente e, de certo modo, conivente, uma vez que não existe um trabalho de combate, muito menos de prevenção.
Esses dias, a mídia divulgou amplamente um estudo que apresentou conclusões no mínimo chocantes, segundo o qual o crack já se encontra presente em 98% dos muncicípios brasileiros. No Maranhão, já está presente em 115. Agora imaginem: um Estado pobre como o nossosonde os serviços de saúde já são péssimos, onde os indicadores são os piores possíveis, termos nas ruas um exército de viciados. É, sem dúvida, o princípio do fim. Recentemente, a polícia em nossa cidade, apreendeu com um traficante mais de um quilo da droga, o que significa que existe muita gente usando por aqui.
Apavora-me a idéia de ver meus filhos suscetíveis a tudo isso, sendo aliciados pelo tráfico, sendo seduzidos pela falsa idéia do "barato" (nem sei se é assim qua ainda se diz). Sim, porque por mais que eu os eduque, que os ensine a se previnirem, sempre haverá alguém lá fora que fará pressão de todo tipo.
Espero sinceramente que a educação que lhes tenho dado seja tão sólida a ponto de fazê-los resistir. E espero que a sociedade, que os governos acordem para esse problema que é muito grave, como disse o advogado do goleiro Bruno recentemente: "Depois da bomba atômica, a coisa mais destruidora que já inventaram foi o crack". Eu não tenho dúvidas quanto a isso. E chamo atenção para o papel que tem a escola nesse contexto, que é de desenvolver um trabalho de prevenção junto aos alunos e, principalmente, junto aos pais que parecem alheios a tudo isso. Senão, corremos o risco de perder nossa juventude.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Há dias em que a cabeça fica vazia e não conseguimos pensar em quase nada útil. Hoje foi um desses dias, até que encontrei em minha caixa de e-mails este poema enviado por meu amigo Codó e que resolvi publicar aqui, pois percebi que ele reflete o meu atual estado de espírito.

O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário Pinto de Andrade
Escritor e político angolano, de nome completo Mário Coelho Pinto de Andrade.
(1928-1990)

domingo, 17 de outubro de 2010

VELOZES E PERIGOSOS

Procurei um título menos parecido com algo que lembrasse ficção científica, mas infelizmente não me veio nada à mente que pudesse definir os jovens inconseqüentes que andam pelas ruas de Vitorino Freire em suas motos muito mais barulhentas que possantes, porém mortais.
Desde que, por conta do Plano Real, os brasileiros puderam ter acesso mais fácil aos financiamentos bancários, houve uma verdadeira explosão do consumo de alguns produtos antes completamente distantes da maioria pouco abastada deste país. É o caso de eletrodomésticos diversos, computadores, DVDs e também automóveis e, principalmente, motocicletas (embora ninguém mais use esta palavra).
Elas estão por aí, às centenas em todas as grandes e pequenas cidades, de todas as marcas e modelos, da mais simples a mais sofisticada. Entretanto, nenhuma é mais comum do que as antigamente chamadas de lambretas, símbolo da década de 60 e de sua juventude transviada.
Estas motonetas bastante simpáticas fazem a alegria das mulheres e dos adolescentes, primeiro porque seu preço as torna acessível, segundo porque não existe uma fiscalização mais rigorosa sobre elas, havendo inclusive uma certa condescendência dos órgãos de trânsito quanto ao seu uso, em função da quantidade de cilindradas, normalmente entre 50 e 125 cc., o que não impede que nelas se atinja facilmente a velocidade de 100 km/h.
Nas rodovias isto não seria grande problema. Acontece que os jovens as usam como verdadeiros bólidos, sem a menor noção do poder mortal que elas têm. Junte-se aí a irresponsabilidade típica da idade e a falta de controle do trânsito numa pequena cidade e o resultado será desastroso. É o que têm acontecido diariamente.
Na escola, todos os dias chega algum aluno (normalmente são alunas) vitimado pelas motos. Pernas, joelhos, braços são sempre os locais mais atingidos. Locais que ficarão para sempre marcados por cicatrizes indeléveis.
O mais interessante nisto tudo é que os acidentes freqüentemente fazem mais de uma vítima. Normalmente são três, pois além de infringirem a regra básica da obrigatoriedade da habilitação, eles também infringem muitas outras, principalmente o fato de que só é permitido carregar um passageiro (que nesse caso é parceiro ou parceira). É bastante comum ver três, às vezes quatro moças numa moto, quase sempre sorridentes, como se vivessem um momento de êxtase, sem nenhuma preocupação com carros, pedestres, ciclistas que, aliás, hoje são raros nas ruas, pois bicicleta passou a ser um acessório para pessoas muito pobres.
Chama-me atenção que quando adquirem as motos, os donos cometem logo um ato absurdo, o de tirar os retrovisores, a única forma de perceber a aproximação de quem venha atrás. É para a moto ficar mais bonita – dizem. Parece que nas suas cabeças ocas passa a idéia de que só devem se preocupar com o que venha pela frente. Um absurdo, pois quem pilotou uma sabe que se fica completamente sem a noção ampla que o condutor deve ter dos vários ângulos das ruas e rodovias.
Capacete então parece ser um acessório completamente desconhecido e desnecessário. Pior são as ultrapassagens, quase sempre feitas de forma a desafiar quem está à frente. A impressão de quem é ultrapassado é que passou um avião a mil por hora. O que dizer então das ultrapassagens pela direita? Meus Deus! Algumas vezes já me vi tentado a jogar o carro em cima destes loucos irresponsáveis. Felizmente não o fiz.
É preciso lembrar que estes jovens não são completamente inocentes em suas atitudes. Quase sempre sabem das conseqüências dos seus atos e das punições que podem advir deles. Escondem-se, porém por trás do poder aquisitivo dos pais e da conivência e inoperância da justiça, o que me leva a questionar quantas mortes serão necessárias para que as autoridades tomem uma providência.
As providências passam principalmente pelo urgente ordenamento do trânsito da cidade, um verdadeiro caos para quem se propõe a trafegar pelas ruas, pela criação de uma guarda municipal, cujos objetivos seriam basicamente fiscalizar, orientar e disciplinar educando as pessoas e não simplesmente reprimindo e multando.
É preciso também que os pais, os verdadeiros responsáveis pela falta de limites dos filhos se conscientizem de que eles é que serão responsabilizados pelos atos dos filhos menores de idade, em caso de acidente com vítimas e também pelos danos a terceiros ou ao patrimônio.
Aliás, irresponsável é o pai, que numa atitude no mínimo impensada, “arma” o filho menor de idade com uma moto. A mim me parece frustração, ou complexo de inferioridade, uma forma de dar ao filho as coisas com as quais sonhava na adolescência, ou simplesmente uma forma de aparecer. Tenho visto muitos pelas ruas, orgulhosamente ensinando o filho a pilotar.
Enquanto as mudanças não acontecem, resta-nos conviver com a falta de educação dos jovens e torcer para que não sejamos vítimas da inconseqüência desses rebeldes sem nenhuma causa.

Prof. Ronilson José Santos – cidadão indignado com o caos

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DIA DOS MESTRES

Neste 15 de outubro, o que os professores tem para comemorar? Quase nada, a não ser o feriado, infelizmente. Num cenário em que as condições de trabalho são cada vez piores e os salários beiram o ridículo, ser professor não é uma das melhores opções neste país.
Acabo de ver no horário eleitoral, Serra e Dilma fazendo promessas para a educação. São as mesmas de outras eleições: valorização salarial, melhoria das condições de trabalho, incentivo à formação. Mentiras, pra variar. Há muito que nenhum governante se preocupa com estes que são os principais responsáveis pelo desenvolvimento do país. O que foi feito nos últimos anos? Nada. O governo do PT exalta a aprovação do piso salarial, o do PSDB em São Paulo fala da política da meritocracia. 
O piso salarial nacional até hoje não saiu do papel na maioria dos municípios que pagam, quando muito, salário mínimo aos professores por uma carga horária que varia de 20 a 40 horas. Consequência disso é que cada vez mais a sobrevivência deste profissional depende da ampliação da jornada de trabalho. Quem não trabalha pelo menos dois turnos não sobrevive. Resultado: mestres cansados, estressados, que não conseguem produzir o que se espera deles.
Além disso, as condições de trabalho são cada vez piores. As turmas continuam superlotadas, abafadas, sem ventilação... A tecnologia mais presente ainda é o quadro de giz (que evoluiu de negro para verde). Sem falar nos alunos cada vez mais endiabrados.
Aliás, grande parte dos problemas enfrentados pelos mestres se deve à falta de limites dos alunos. O professor é hoje tratado como lixo por adolescentes mal educados, mimados e superprotegidos tanto pelos pais quanto pela "justiça". Qualquer palavra mais forte dita por um professor é motivo para reclamações junto ao Conselho Tutelar, que via regra dá razão ao aluno. Quando a vítima é o mestre, nada acontece. O resultado disso são professores com "medo de ensinar", medo de enfrentar a sala de aula, depressivos, com síndrome de pânico, síndrome de Bournut. Isso quando não são agredidos fisicamente dentro das salas.
Por tudo isso, não há o que comemorar, ao contrário, é hora de cobrar uma mudança de postura dos nossos governantes, cobrar que de fato eles se comprometam com a educação em todos os níveis.Não adianta ficar enfeitando a coisa no horário eleitoral. A realidade do ensino público é bem diferente do que se vê na televisão.
Pelo menos neste dia 15 que sejam rendidas homenagens aos nossos mestres que todos os dias lutam, "chovem no molhado" por um país melhor, embora sem acreditar muito que a sua própria realidade possa mudar.
Parabéns, professores!
.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Titirica se elegeu. E agora?

No último dia 03 de outubro, o país assistiu estarrecido à eleição o palhaço Titirica para a Câmara dos Deputados com mais de 1.300.000 votos. Até aí, nada de extraordinário. Um cidadão pode sim ser amado ao ponto de conseguir uma votação tão expressivaa. O que espanta é que tenha sido pelo Estado de São Paulo, tão politizado, acostumado a eleger políticos de direita e avesso aos atuais nomes do PT.
Um palhaço no lugar certo eu diria. Afinal, estamos mais que acostumados a ver os nossos nobre deputados fazendo palhaçadas de todo tipo. O problema é o precedente e o que isso representa. O voto em Tiririca pode ser analisado por duas vertentes. Primeira: as pessoas que o elegeram viram nele um homem do povo, um legítimo representante dos desdentados deste país; Segunda: voto de protesto. Quem votou em Tiririca, o fez por estar cansado dos políticos de sempre, fazendo promessas mentirosas e escamoteando a política. Em qualquer das situações, seria hilário se não fosse tão triste e perigoso.
O que vai fazer na câmara um cidadão sem formação, sem nenhuma noção do que é legislar, analfabeto. Resposta: as mesmas coisas que já fazem outros pares dele que chegaram lá bem antes. Sim, senhoras e senhores. O Congresso Nacional está cheio de gente como o cidadão aqui citado, que chamou atenção apenas por ser famoso e engraçado. Ele não estará sozinho e poderá fazer boas tabelinhas, inclusive com alguns maranhenses que lá estarão. Já ouviram falar do Zé Vieira? Gostaria muito de assistir a um discurso tanto de um quanto de outro. Estes mestres da oratória discursando no plenário. Que cena dantesca: a câmera fecha nos olhos esbugalhados de Zé Vieira, proferindo impropérios contra João Alberto. De repente a imagem dos deputados, digo, das cadeiras... Quem já assistiu uma dessas transmissões da TV Câmara sabe que os discursos acontecem quase sempre sem platéia. Tiririca, acredito, terá bastante, pelo menos no início, e fará com que os seus colegas riam muito com os seus bordões. Ou será que não pode? Será que é falta de decoro?

O DRAMA DE SER MARANHENSE

Há algum tempo me sinto incomodado com a forma como os meios de comunicação, através dos jornais, revistas, programas de humor principalmente, tratam lá fora o povo maranhense. As referências são sempre pejorativas e depreciativas. Só para citar algumas: Alnaldo Jabor em sua crônica no Jornal da Globo comparou nosso estado ao Afeganistão, onde as leis não são cumpridas pelos cidadãos nem respeitadas pelas autoridades, fazendo referência à forma como o Tribunal Regional Eleitoral daqui liberou propositadamente as candidaturas de alguns fichas-sujas, contrariando a orientação do TSE; No Fantástico, Dráuzio Varella achincalhou a imagem de um professor de Química da Universidade Estadual do Maranhão por fazer "pesquisas" e "receitar" medicamentos a base de graviola; recentemente num programa da MTV os maranhenses foram motivo de piada por terem "elegido" de novo Roseana Sarney. 
A questão aqui não são as piadas, o achinque. O problema é que fica difícil explicar certas coisas que acontecem neste estado tão pobre e ao mesmo tempo tão rico. As estatísticas sempre nos colocam em último em tudo, ou em primeiro, dependendo do ponto de vista: temos o maior número de analfabetos, a renda per-capta mais baixa, os menores índices de escolaridade, índices altíssimos de trabalho infantil,  os mais altos índices de trabalho escravo.
O Maranhão é um estado rico e poderia ser muito próspero não fossem os políticos sanguessugas que temos pra dar e vender a quem se interessar. São pessoas que estão no poder desde que aprendi a entender as coisas. As mesmas figuras de sempre que vivem repetindo a cada eleição o seu desejo de mudar o Estado. São sempre as mesmas promessas repetidas incansavelmente, as mesmas mentiras.
Poder-se-ía então dizer que os maranhenses somos ingênuos, ignorantes, burros por votar nestas pessoas? Sim e não. Infelizmente, nossa população de mais 4 milhões de pesssoas é composta em sua maioria por pessoas subescolarizadas, analfabetos funcionais, cidadãos de segunda categoria, pessoas que por sua condição de probreza se fizeram dependentes dos políticos que só aparecem em época de eleição. Fica muito fácil manipular essas pessoas, são vítimas fáceis.
De vez em quando aparece alguém tentando explicar o inexplicável, como aquele Senador reeleito que disse que o maranhense mora em casa pau a pique porque gosta, porque é mais frio. Ele só não disse que uma época mandou queimar dezenas destas casas numa comunidade de posseiros.
É um Estado sem leis, infelizmente. No período eleitoral, os políticos deitam e rolam, a compra de votos chega a ser escancarada. Troca-se o voto por tudo: de dentaduras a geladeiras; de chuteiras a tijolos. Ganha a eleição quem compra mais votos. Aqui as campanhas são caríssimas e riquíssimas.
 O resultado é que já conhecemos. E essa realidade não vai mudar tão cedo, pois a cada eleição parece que os poderosos se perpetuam no poder. Se mudam alguns nomes, mas as idéias continuam as mesmas. O povo já tem até medo de mudar, até porque não há como mudar.
Por tudo isso fica dificil ter orgulho de ser maranhense, embora aqui aja também muita coisa boa, muitos nomes bons na música, na literatura, nas artes, até na política. Pessoas que como eu, sofrem na pele o estigma de ter que justificar o tempo todo a nossa realidade, que na verdade não tem explicação. Infelizmente, o resultado da última eleição enterrou de vez qualquer esperança de mudar a realidade no curto prazo. Talvez tenhamos aí mais uns quarenta anos de atraso, enquanto o resto país avança.

O parto da terra

Como não falar dos mineiros chilenos e suas histórias? Acompanhei nos últimos dois dias com muita ansiedade, como o mundo inteiro, o resgate destes verdadeiros herois chilenos. Na verdade herois latino-americanos por representarem um povo inteiro, um povo que luta, que trabalha diariamente, muitas vezes sob condições totalmente adversas para garantir a sobrevivência.
A expectativa em torno do resgate com vida dos 33 mineiros provocou comoção em todos os países que acompanharam pela mídia diairiamente a rotina da equipe de resgate em pleno Deserto do Atacama, o lugar mais seco do mundo. As imagens mostradas do local onde os mineiros sobreviveram por tanto tempo suscitavam em nossas mentes idéias bem diversas. Dava pra ver que era um local apertado, abafado, insólito. Como imaginar que alguém pudesse sobreviver por tanto tempo? Mas sobreviveram e viveram juntos, unidos esperançosos.
Fico imaginando as conversas entre eles, os planos para o futuro, as lamentações, as queixas, os arrependimentos. Sim, porque embora todos tivessem esperança de sair dali vivos, também certamente imaginavam que aquilo poderia representar o fim, que nunca fossem resgatados. Afinal que tecnologia poderia ser tão eficaz a ponto de fazer uma perfuração de mais de seiscentos metros para chegar até eles em tão pouco tempo? Quatro meses, era a previsão inicial. Como sobreviver à ração limitada, ao tédio, à falta de luz natural, à saudade...
Creio que como eu, a maioria das pessoas esperasse que, ao sair, todos estivessem sujos, esquálidos, maltrapilhos, famintos. Não foi bem essa a imagem. Fui dormir na quarta-feira, após a saída do primeiro sobrevivente. Confesso que fiquei meio decepcionado: não era aquilo que esperava ver. Saiu um homem  forte, aparentemente saldável e feliz. Egoísmo meu. Assisti emocionado ao encontro entre ele, a esposa e o filho pequeno. O garoto chorava como se o pai tivesse renascido. De fato, acho que é isso que vai acontecer com cada um deles, o ínicio de uma nova vida.
Senti-me feliz, emocionado com aquela cena comovente, coisas da latinidade, diriam os frios europeus. Porém a imagem certamente comoveu a todos no mundo inteiro, por serem os mineiros pessoas comuns que de repente se fizeram herois, alheios a imprensa de plantão, aos políticos que trataram de tirar a sua casquinha para aumentar a popularidade, aos aproveitadores que certamente irão aparecer.
Estes homens terão as suas vidas renovadas a partir de agora numa espécie de renascimento. Alguns já próximos da aposentadoria, outros iniciando a vida adulta, porém todos eles serão pessoas novas a partir de agora. Espero que o mundo aprenda com eles.