"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto". (Rui Barbosa)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Há dias em que a cabeça fica vazia e não conseguimos pensar em quase nada útil. Hoje foi um desses dias, até que encontrei em minha caixa de e-mails este poema enviado por meu amigo Codó e que resolvi publicar aqui, pois percebi que ele reflete o meu atual estado de espírito.

O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Mário Pinto de Andrade
Escritor e político angolano, de nome completo Mário Coelho Pinto de Andrade.
(1928-1990)

domingo, 17 de outubro de 2010

VELOZES E PERIGOSOS

Procurei um título menos parecido com algo que lembrasse ficção científica, mas infelizmente não me veio nada à mente que pudesse definir os jovens inconseqüentes que andam pelas ruas de Vitorino Freire em suas motos muito mais barulhentas que possantes, porém mortais.
Desde que, por conta do Plano Real, os brasileiros puderam ter acesso mais fácil aos financiamentos bancários, houve uma verdadeira explosão do consumo de alguns produtos antes completamente distantes da maioria pouco abastada deste país. É o caso de eletrodomésticos diversos, computadores, DVDs e também automóveis e, principalmente, motocicletas (embora ninguém mais use esta palavra).
Elas estão por aí, às centenas em todas as grandes e pequenas cidades, de todas as marcas e modelos, da mais simples a mais sofisticada. Entretanto, nenhuma é mais comum do que as antigamente chamadas de lambretas, símbolo da década de 60 e de sua juventude transviada.
Estas motonetas bastante simpáticas fazem a alegria das mulheres e dos adolescentes, primeiro porque seu preço as torna acessível, segundo porque não existe uma fiscalização mais rigorosa sobre elas, havendo inclusive uma certa condescendência dos órgãos de trânsito quanto ao seu uso, em função da quantidade de cilindradas, normalmente entre 50 e 125 cc., o que não impede que nelas se atinja facilmente a velocidade de 100 km/h.
Nas rodovias isto não seria grande problema. Acontece que os jovens as usam como verdadeiros bólidos, sem a menor noção do poder mortal que elas têm. Junte-se aí a irresponsabilidade típica da idade e a falta de controle do trânsito numa pequena cidade e o resultado será desastroso. É o que têm acontecido diariamente.
Na escola, todos os dias chega algum aluno (normalmente são alunas) vitimado pelas motos. Pernas, joelhos, braços são sempre os locais mais atingidos. Locais que ficarão para sempre marcados por cicatrizes indeléveis.
O mais interessante nisto tudo é que os acidentes freqüentemente fazem mais de uma vítima. Normalmente são três, pois além de infringirem a regra básica da obrigatoriedade da habilitação, eles também infringem muitas outras, principalmente o fato de que só é permitido carregar um passageiro (que nesse caso é parceiro ou parceira). É bastante comum ver três, às vezes quatro moças numa moto, quase sempre sorridentes, como se vivessem um momento de êxtase, sem nenhuma preocupação com carros, pedestres, ciclistas que, aliás, hoje são raros nas ruas, pois bicicleta passou a ser um acessório para pessoas muito pobres.
Chama-me atenção que quando adquirem as motos, os donos cometem logo um ato absurdo, o de tirar os retrovisores, a única forma de perceber a aproximação de quem venha atrás. É para a moto ficar mais bonita – dizem. Parece que nas suas cabeças ocas passa a idéia de que só devem se preocupar com o que venha pela frente. Um absurdo, pois quem pilotou uma sabe que se fica completamente sem a noção ampla que o condutor deve ter dos vários ângulos das ruas e rodovias.
Capacete então parece ser um acessório completamente desconhecido e desnecessário. Pior são as ultrapassagens, quase sempre feitas de forma a desafiar quem está à frente. A impressão de quem é ultrapassado é que passou um avião a mil por hora. O que dizer então das ultrapassagens pela direita? Meus Deus! Algumas vezes já me vi tentado a jogar o carro em cima destes loucos irresponsáveis. Felizmente não o fiz.
É preciso lembrar que estes jovens não são completamente inocentes em suas atitudes. Quase sempre sabem das conseqüências dos seus atos e das punições que podem advir deles. Escondem-se, porém por trás do poder aquisitivo dos pais e da conivência e inoperância da justiça, o que me leva a questionar quantas mortes serão necessárias para que as autoridades tomem uma providência.
As providências passam principalmente pelo urgente ordenamento do trânsito da cidade, um verdadeiro caos para quem se propõe a trafegar pelas ruas, pela criação de uma guarda municipal, cujos objetivos seriam basicamente fiscalizar, orientar e disciplinar educando as pessoas e não simplesmente reprimindo e multando.
É preciso também que os pais, os verdadeiros responsáveis pela falta de limites dos filhos se conscientizem de que eles é que serão responsabilizados pelos atos dos filhos menores de idade, em caso de acidente com vítimas e também pelos danos a terceiros ou ao patrimônio.
Aliás, irresponsável é o pai, que numa atitude no mínimo impensada, “arma” o filho menor de idade com uma moto. A mim me parece frustração, ou complexo de inferioridade, uma forma de dar ao filho as coisas com as quais sonhava na adolescência, ou simplesmente uma forma de aparecer. Tenho visto muitos pelas ruas, orgulhosamente ensinando o filho a pilotar.
Enquanto as mudanças não acontecem, resta-nos conviver com a falta de educação dos jovens e torcer para que não sejamos vítimas da inconseqüência desses rebeldes sem nenhuma causa.

Prof. Ronilson José Santos – cidadão indignado com o caos

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DIA DOS MESTRES

Neste 15 de outubro, o que os professores tem para comemorar? Quase nada, a não ser o feriado, infelizmente. Num cenário em que as condições de trabalho são cada vez piores e os salários beiram o ridículo, ser professor não é uma das melhores opções neste país.
Acabo de ver no horário eleitoral, Serra e Dilma fazendo promessas para a educação. São as mesmas de outras eleições: valorização salarial, melhoria das condições de trabalho, incentivo à formação. Mentiras, pra variar. Há muito que nenhum governante se preocupa com estes que são os principais responsáveis pelo desenvolvimento do país. O que foi feito nos últimos anos? Nada. O governo do PT exalta a aprovação do piso salarial, o do PSDB em São Paulo fala da política da meritocracia. 
O piso salarial nacional até hoje não saiu do papel na maioria dos municípios que pagam, quando muito, salário mínimo aos professores por uma carga horária que varia de 20 a 40 horas. Consequência disso é que cada vez mais a sobrevivência deste profissional depende da ampliação da jornada de trabalho. Quem não trabalha pelo menos dois turnos não sobrevive. Resultado: mestres cansados, estressados, que não conseguem produzir o que se espera deles.
Além disso, as condições de trabalho são cada vez piores. As turmas continuam superlotadas, abafadas, sem ventilação... A tecnologia mais presente ainda é o quadro de giz (que evoluiu de negro para verde). Sem falar nos alunos cada vez mais endiabrados.
Aliás, grande parte dos problemas enfrentados pelos mestres se deve à falta de limites dos alunos. O professor é hoje tratado como lixo por adolescentes mal educados, mimados e superprotegidos tanto pelos pais quanto pela "justiça". Qualquer palavra mais forte dita por um professor é motivo para reclamações junto ao Conselho Tutelar, que via regra dá razão ao aluno. Quando a vítima é o mestre, nada acontece. O resultado disso são professores com "medo de ensinar", medo de enfrentar a sala de aula, depressivos, com síndrome de pânico, síndrome de Bournut. Isso quando não são agredidos fisicamente dentro das salas.
Por tudo isso, não há o que comemorar, ao contrário, é hora de cobrar uma mudança de postura dos nossos governantes, cobrar que de fato eles se comprometam com a educação em todos os níveis.Não adianta ficar enfeitando a coisa no horário eleitoral. A realidade do ensino público é bem diferente do que se vê na televisão.
Pelo menos neste dia 15 que sejam rendidas homenagens aos nossos mestres que todos os dias lutam, "chovem no molhado" por um país melhor, embora sem acreditar muito que a sua própria realidade possa mudar.
Parabéns, professores!
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Titirica se elegeu. E agora?

No último dia 03 de outubro, o país assistiu estarrecido à eleição o palhaço Titirica para a Câmara dos Deputados com mais de 1.300.000 votos. Até aí, nada de extraordinário. Um cidadão pode sim ser amado ao ponto de conseguir uma votação tão expressivaa. O que espanta é que tenha sido pelo Estado de São Paulo, tão politizado, acostumado a eleger políticos de direita e avesso aos atuais nomes do PT.
Um palhaço no lugar certo eu diria. Afinal, estamos mais que acostumados a ver os nossos nobre deputados fazendo palhaçadas de todo tipo. O problema é o precedente e o que isso representa. O voto em Tiririca pode ser analisado por duas vertentes. Primeira: as pessoas que o elegeram viram nele um homem do povo, um legítimo representante dos desdentados deste país; Segunda: voto de protesto. Quem votou em Tiririca, o fez por estar cansado dos políticos de sempre, fazendo promessas mentirosas e escamoteando a política. Em qualquer das situações, seria hilário se não fosse tão triste e perigoso.
O que vai fazer na câmara um cidadão sem formação, sem nenhuma noção do que é legislar, analfabeto. Resposta: as mesmas coisas que já fazem outros pares dele que chegaram lá bem antes. Sim, senhoras e senhores. O Congresso Nacional está cheio de gente como o cidadão aqui citado, que chamou atenção apenas por ser famoso e engraçado. Ele não estará sozinho e poderá fazer boas tabelinhas, inclusive com alguns maranhenses que lá estarão. Já ouviram falar do Zé Vieira? Gostaria muito de assistir a um discurso tanto de um quanto de outro. Estes mestres da oratória discursando no plenário. Que cena dantesca: a câmera fecha nos olhos esbugalhados de Zé Vieira, proferindo impropérios contra João Alberto. De repente a imagem dos deputados, digo, das cadeiras... Quem já assistiu uma dessas transmissões da TV Câmara sabe que os discursos acontecem quase sempre sem platéia. Tiririca, acredito, terá bastante, pelo menos no início, e fará com que os seus colegas riam muito com os seus bordões. Ou será que não pode? Será que é falta de decoro?

O DRAMA DE SER MARANHENSE

Há algum tempo me sinto incomodado com a forma como os meios de comunicação, através dos jornais, revistas, programas de humor principalmente, tratam lá fora o povo maranhense. As referências são sempre pejorativas e depreciativas. Só para citar algumas: Alnaldo Jabor em sua crônica no Jornal da Globo comparou nosso estado ao Afeganistão, onde as leis não são cumpridas pelos cidadãos nem respeitadas pelas autoridades, fazendo referência à forma como o Tribunal Regional Eleitoral daqui liberou propositadamente as candidaturas de alguns fichas-sujas, contrariando a orientação do TSE; No Fantástico, Dráuzio Varella achincalhou a imagem de um professor de Química da Universidade Estadual do Maranhão por fazer "pesquisas" e "receitar" medicamentos a base de graviola; recentemente num programa da MTV os maranhenses foram motivo de piada por terem "elegido" de novo Roseana Sarney. 
A questão aqui não são as piadas, o achinque. O problema é que fica difícil explicar certas coisas que acontecem neste estado tão pobre e ao mesmo tempo tão rico. As estatísticas sempre nos colocam em último em tudo, ou em primeiro, dependendo do ponto de vista: temos o maior número de analfabetos, a renda per-capta mais baixa, os menores índices de escolaridade, índices altíssimos de trabalho infantil,  os mais altos índices de trabalho escravo.
O Maranhão é um estado rico e poderia ser muito próspero não fossem os políticos sanguessugas que temos pra dar e vender a quem se interessar. São pessoas que estão no poder desde que aprendi a entender as coisas. As mesmas figuras de sempre que vivem repetindo a cada eleição o seu desejo de mudar o Estado. São sempre as mesmas promessas repetidas incansavelmente, as mesmas mentiras.
Poder-se-ía então dizer que os maranhenses somos ingênuos, ignorantes, burros por votar nestas pessoas? Sim e não. Infelizmente, nossa população de mais 4 milhões de pesssoas é composta em sua maioria por pessoas subescolarizadas, analfabetos funcionais, cidadãos de segunda categoria, pessoas que por sua condição de probreza se fizeram dependentes dos políticos que só aparecem em época de eleição. Fica muito fácil manipular essas pessoas, são vítimas fáceis.
De vez em quando aparece alguém tentando explicar o inexplicável, como aquele Senador reeleito que disse que o maranhense mora em casa pau a pique porque gosta, porque é mais frio. Ele só não disse que uma época mandou queimar dezenas destas casas numa comunidade de posseiros.
É um Estado sem leis, infelizmente. No período eleitoral, os políticos deitam e rolam, a compra de votos chega a ser escancarada. Troca-se o voto por tudo: de dentaduras a geladeiras; de chuteiras a tijolos. Ganha a eleição quem compra mais votos. Aqui as campanhas são caríssimas e riquíssimas.
 O resultado é que já conhecemos. E essa realidade não vai mudar tão cedo, pois a cada eleição parece que os poderosos se perpetuam no poder. Se mudam alguns nomes, mas as idéias continuam as mesmas. O povo já tem até medo de mudar, até porque não há como mudar.
Por tudo isso fica dificil ter orgulho de ser maranhense, embora aqui aja também muita coisa boa, muitos nomes bons na música, na literatura, nas artes, até na política. Pessoas que como eu, sofrem na pele o estigma de ter que justificar o tempo todo a nossa realidade, que na verdade não tem explicação. Infelizmente, o resultado da última eleição enterrou de vez qualquer esperança de mudar a realidade no curto prazo. Talvez tenhamos aí mais uns quarenta anos de atraso, enquanto o resto país avança.

O parto da terra

Como não falar dos mineiros chilenos e suas histórias? Acompanhei nos últimos dois dias com muita ansiedade, como o mundo inteiro, o resgate destes verdadeiros herois chilenos. Na verdade herois latino-americanos por representarem um povo inteiro, um povo que luta, que trabalha diariamente, muitas vezes sob condições totalmente adversas para garantir a sobrevivência.
A expectativa em torno do resgate com vida dos 33 mineiros provocou comoção em todos os países que acompanharam pela mídia diairiamente a rotina da equipe de resgate em pleno Deserto do Atacama, o lugar mais seco do mundo. As imagens mostradas do local onde os mineiros sobreviveram por tanto tempo suscitavam em nossas mentes idéias bem diversas. Dava pra ver que era um local apertado, abafado, insólito. Como imaginar que alguém pudesse sobreviver por tanto tempo? Mas sobreviveram e viveram juntos, unidos esperançosos.
Fico imaginando as conversas entre eles, os planos para o futuro, as lamentações, as queixas, os arrependimentos. Sim, porque embora todos tivessem esperança de sair dali vivos, também certamente imaginavam que aquilo poderia representar o fim, que nunca fossem resgatados. Afinal que tecnologia poderia ser tão eficaz a ponto de fazer uma perfuração de mais de seiscentos metros para chegar até eles em tão pouco tempo? Quatro meses, era a previsão inicial. Como sobreviver à ração limitada, ao tédio, à falta de luz natural, à saudade...
Creio que como eu, a maioria das pessoas esperasse que, ao sair, todos estivessem sujos, esquálidos, maltrapilhos, famintos. Não foi bem essa a imagem. Fui dormir na quarta-feira, após a saída do primeiro sobrevivente. Confesso que fiquei meio decepcionado: não era aquilo que esperava ver. Saiu um homem  forte, aparentemente saldável e feliz. Egoísmo meu. Assisti emocionado ao encontro entre ele, a esposa e o filho pequeno. O garoto chorava como se o pai tivesse renascido. De fato, acho que é isso que vai acontecer com cada um deles, o ínicio de uma nova vida.
Senti-me feliz, emocionado com aquela cena comovente, coisas da latinidade, diriam os frios europeus. Porém a imagem certamente comoveu a todos no mundo inteiro, por serem os mineiros pessoas comuns que de repente se fizeram herois, alheios a imprensa de plantão, aos políticos que trataram de tirar a sua casquinha para aumentar a popularidade, aos aproveitadores que certamente irão aparecer.
Estes homens terão as suas vidas renovadas a partir de agora numa espécie de renascimento. Alguns já próximos da aposentadoria, outros iniciando a vida adulta, porém todos eles serão pessoas novas a partir de agora. Espero que o mundo aprenda com eles.